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O cliente que já é seu vale mais do que o próximo

Existe uma matemática que quase nenhum escritório de advocacia calcula.

Captar um novo cliente custa várias vezes mais do que expandir uma relação existente. No entanto, a maioria dos escritórios com os quais trabalho, no Brasil e em Portugal, não estrutura sua operação comercial em torno desse fato. A consequência aparece no resultado de longo prazo, quase sempre sem ser nomeada.

A pergunta que ninguém faz

Em diagnósticos estratégicos com escritórios de diferentes portes, costumo pedir o mesmo exercício à liderança. Liste os vinte clientes mais relevantes do escritório. Ao lado de cada nome, escreva todas as áreas que esse cliente contratou nos últimos três anos.

O resultado costuma ser desconfortável.

A maioria dos clientes mais importantes trabalha com uma única área. Em muitos casos, o sócio sabe que esse mesmo cliente trabalha com outros escritórios para assuntos diferentes. Em outros, simplesmente nunca perguntou.

O que isso revela não é falta de competência técnica. Revela falta de visibilidade interna sobre os próprios clientes e, por consequência, falta de confiança e transparência entre os sócios.

Por que isso acontece

Há três razões que se reforçam mutuamente.

A primeira é cultural. Em boa parte dos escritórios, o cliente pertence ao sócio que originou a relação. Apresentá-lo a um colega de outra área é interpretado como diluir o vínculo. O receio é compreensível. O custo, raramente calculado.

A segunda é estrutural. As áreas operam como silos. O sócio do contencioso ouve, de passagem, que o cliente está estudando uma reorganização societária. A informação passa, a conversa segue, e três meses depois aquele cliente fecha a operação com outro escritório. A oportunidade existia. A estrutura para capturá-la, não.

A terceira é a remuneração. O sócio que apresenta o cliente a um colega abre mão de receita futura sem garantia de reciprocidade. Em sistemas com originação concentrada, o desincentivo é direto. Em sistemas mais diluídos, o estímulo existe, mas raramente é desenhado de forma intencional.

O resultado é o mesmo em ambos os casos. O cross-selling fica como iniciativa pessoal de cada sócio, sem o suporte de uma estrutura compartilhada.

O que está em jogo

A consequência prática é uma matemática de crescimento frágil. Para crescer, é preciso captar mais. Para captar mais, é preciso investir em pipeline, posicionamento, eventos, conteúdo.

Tudo isso é necessário. Mas ignora a fonte de crescimento mais barata, mais rápida e com maior taxa de conversão que o escritório já tem.

A pergunta correta, então, é outra: quanto cada cliente atual está utilizando do escritório e quanto poderia estar?

O ponto de partida

O exercício começa antes do CRM. Antes da reunião de comitê. Antes da campanha.

Começa por um mapa.

Quais são os vinte ou trinta clientes mais relevantes? Em quantas áreas são atendidos hoje? Em quantas áreas deveriam estar sendo atendidos? Onde estão as lacunas?

Com base nos diagnósticos que conduzo em escritórios no Brasil e em Portugal, esse mapa reduz o tempo de identificação de oportunidades de meses para semanas. Não porque seja uma ferramenta sofisticada, mas porque obriga a uma conversa que normalmente não acontece.

O mapa não precisa de software. Precisa de honestidade. E quase nunca é feito.

Três decisões que mudam o jogo

A partir desse mapa, três decisões se tornam possíveis.

A primeira é definir um responsável de relacionamento por cliente, alguém que coordene a conta como um todo, além da área que a originou.

A segunda é alinhar a remuneração ao resultado da conta como um todo, e não apenas à originação inicial. O comportamento desejado precisa ser visível na distribuição. Caso contrário, o discurso e o incentivo se contradizem.

A terceira é criar momentos estruturados em que sócios de áreas diferentes conversem sobre os clientes que compartilham, não para reportar, mas para fazer uma leitura conjunta do negócio do cliente.

A decisão de fundo

Expansão de contas não é técnica de venda. É consequência de uma decisão sobre como o escritório se entende.

Se o cliente é do sócio, o teto é o sócio.

Se o cliente é do escritório, o teto é o que o escritório é capaz de oferecer.

Os escritórios que crescem de forma consistente atravessam essa transição em algum momento. Inevitavelmente. E é nesse momento que o cliente que já é seu deixa de ser uma posição confortável e se torna, finalmente, uma fonte real de crescimento.

Perguntas frequentes

Cross-selling em escritórios de advocacia funciona?
Funciona quando existe um responsável de relacionamento por conta, alinhamento de remuneração e momentos estruturados de compartilhamento entre sócios. Sem estrutura, fica dependente da iniciativa individual e raramente escala.

Por que os sócios resistem a apresentar clientes a colegas?
A resistência é majoritariamente econômica e cultural. Em modelos de originação concentrada, apresentar um cliente a outro sócio significa abrir mão de receita futura sem garantia de reciprocidade. O problema não é falta de vontade, é falta de um sistema que torne a colaboração racional.

Qual é o primeiro passo para aumentar a receita por cliente existente?
Construir um mapa de utilização: quais clientes relevantes são atendidos em quantas áreas e onde estão as lacunas óbvias. Com base nos diagnósticos que conduzo, esse exercício é simples de executar e sistematicamente adiado. O mapa não exige software, exige honestidade interna.

Se esse diagnóstico faz sentido para o seu escritório

Se você reconheceu o seu escritório em algum ponto deste artigo, o próximo passo não é um projeto. É uma conversa.

Trabalho com sócios e lideranças de escritórios de advocacia no Brasil e em Portugal que querem crescer a partir do que já têm, antes de investir no que ainda não têm.

Se quiser explorar como isso se aplica à sua realidade, entre em contato: kamilla.marcondes@kamillamarcondes.com

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